Paula Pires posa com os colegas Blake Westen e Kyusang Jeong em Colônia

"Estamos precisando de clarinete na banda, então, é este instrumento que você vai tocar", disse o maestro na escola da mineira Paula Pires, que de "forma nada romântica", como ela gosta de lembrar, iniciava ali uma carreira musical que a levaria à Alemanha e muitos outros lugares. A relação com o instrumento começou sem querer, mas virou compromisso sério e paixão para a vida. Paula cursou o bacharelado em clarinete pela UNESP, partiu para o mestrado em clarinete na Hochschule für Musik und Tanz Köln (HfMT) com uma bolsa do DAAD e atualmente é aluna de doutorado em Música pela Universidade de Évora, em Portugal. Residindo em São Paulo desde o fim do mestrado em Colônia, Paula atua como clarinetista na Orquestra do Theatro São Pedro (Orthesp) e professora na Escola de Música do Estado de São Paulo (Emesp).

Com a história da ex-bolsista de Música e seu mestrado na HfMT entre 2013 e 2015, damos continuidade à série Brasilidaad. Nesta entrevista ao DAAD Brasil, ela conta sobre a escolha do curso, o impacto da temporada alemã em sua vida e carreira, o aprendizado do alemão e, claro, sobre sua relação bastante romântica com a música.

Como começou seu interesse pela Alemanha? E como se deu a decisão de estudar lá?
Paula Pires: Poderia falar horas sobre esse assunto. Ainda na faculdade fiquei bastante incomodada quando meu professor disse que, para tocar determinada passagem musical, eu deveria imaginar um campo coberto de neve. "Nunca vi neve!", pensei, e foi aí que todos os meus projetos começaram a ser desenhados. Eu tinha consciência de quão incríveis eram meus professores no Brasil, mas existia um tipo de conhecimento que não poderia ser ensinado, apenas vivido. Como brasileira, eu consideraria, no mínimo, estranho que um músico estrangeiro que decidisse trabalhar com música brasileira nunca tivesse passado um tempo no Brasil, sentido o clima, visitado as praias ou algo assim. Foi, então, que eu constatei que, mesmo com todas as facilidades advindas do processo de globalização, a “imersão cultural” ainda seria imprescindível para o meu aperfeiçoamento musical. Essa vivência abrangeria aspectos linguísticos, sociais, climáticos e filosóficos — subjetividades que produziriam grandes resultados para a formação de um artista. Percebi que visitar os museus, experimentar a culinária, sentir pela primeira vez um inverno rigoroso e, principalmente, o nascer da primavera depois desse eram o que me possibilitaria adentrar o mundo dos grandes compositores presentes na literatura da música de concerto, à qual decidi dedicar minha carreira.

Quais motivos levaram à escolha da Hochschule für Musik und Tanz Köln (HfMT)?
Paula Pires: A grande motivação foi o professor Ralph Manno, que conheci no Festival de Inverno de Campos do Jordão, em 2010. Naquele ano, ele chamou a atenção de alunos de diversos instrumentos ao se relacionar de maneira tão honesta e sensível com a música. O Ralph é uma pessoa muito bonita, humana e um artista "fora da curva". Seu entusiasmo e energia ao lecionar transformavam cada aula, cada frase musical e cada nota em uma experiência quase que sensorial. Depois desse encontro, o meu "sonho europeu" passou a ter nome e endereço.

A clarinetista em um momento de descanso na temporada alemã

Quais foram os melhores aspectos do mestrado?
Paula Pires: Além de ter o privilégio de estar numa das classes de clarinete mais disputadas da Europa, sendo orientada por um professor tão especial, a experiência não parou por aí. Na própria escola, havia vários grandes artistas e ter podido conviver com eles foi, de fato, um "turning point" em todo o desenvolvimento do meu pensar e fazer musicais.

O que você escolheu estudar no mestrado?
Paula Pires: Para a conclusão do meu bacharelado iniciei um trabalho com a obra "Der kleine Harlekin", do compositor alemão Karlheinz Stockhausen, que chegou a lecionar por alguns anos na HfMT Köln. Na ocasião, fui a primeira clarinetista brasileira a tocar a obra. Já durante a minha permanência em Colônia pude me relacionar estreitamente com a clarinetista Suzanne Stephens, ex-mulher de Stockhausen que vivia em Kürten (próximo de Colônia), e comecei a preparar a obra mais longa e complexa "Harlekin". É uma peça solo de 45 minutos, que precisa ser tocada de memória, enquanto o clarinetista também dança e interpreta. Stockhausen escreveu as peças para ela. Apesar de o mestrado em performance não se restringir a uma pesquisa específica, também escrevi um trabalho abordando as obras e, após minha volta ao Brasil, fiz a estreia brasileira da peça "Harlekin" num evento de música contemporânea no Instituto de Artes da UNESP.

Que dicas daria para outros músicos interessados em se candidatar à bolsa?
Paula Pires: Eu aconselharia que eles realmente gastem bastante tempo com a candidatura e que façam tudo com muito carinho. A bolsa de Música foi definitivamente a melhor coisa que me aconteceu.

Que impacto essa temporada na Alemanha teve na sua vida profissional?
Paula Pires: Eu diria que me transformou em uma pessoa e, consequentemente, em uma artista diferente. Ainda tenho contato com vários amigos dessa época e com o professor Ralph Manno. No ano passado, inclusive, ele me convidou para participar como bolsista em um curso em Dresden. Essa bolsa, a propósito, foi financiada pelo DAAD. Durante o mestrado na Alemanha, também pude assistir a vários concertos e participar de diversos cursos em outros países que eram relativamente próximos, onde também pude conhecer grandes músicos.

Como foi sua adaptação na Alemanha? Já falava o idioma?
Paula Pires: Eu falava um pouco de alemão, mas me virava basicamente em inglês. Inclusive ouvi há algum tempo de um professor holandês que falo inglês como os alemães (risos). O curso de alemão de quatro meses também financiado pela bolsa foi um sonho. Era verão e eu estava numa escola regular com muitas atividades extras, onde fiz muitos amigos das mais diversas culturas. Porém, a cereja do bolo para aprender o alemão foram os alemães que moraram comigo na WG (abreviação para a palavra Wohngemeinschaft, que significa república de estudantes). Eles se tornaram grandes amigos e diria que foi nessas conversas sobre a vida que realmente eu aprendi o idioma.