O programa de residência artística do DAAD, o Berliner Künstlerprogramm, volta a ter um brasileiro entre os selecionados para um ano de intenso mergulho na arte na capital alemã: o artista visual Guerreiro do Divino Amor foi um dos 18 selecionados do último edital. Criada em 1963, a residência recebe anualmente até 20 artistas internacionalmente reconhecidos nos campos das artes visuais, cinema, literatura e música. Desde 1990 não havia representantes brasileiros selecionados na modalidade de artes visuais.

A provocante e diversificada produção audiovisual de Guerreiro do Divino Amor lida com super-ficções ironicamente críticas às realidades em que vivemos – conheça aqui o site do artista. Em entrevista à equipe do DAAD Brasil, ele conta sobre sua trajetória artística, influências e expectativas para a estadia em Berlim em 2021. Para lá seguirão outros cinco artistas visuais, da África do Sul, Palestina, Zimbábue, Índia e Tailândia. Essa diversidade de origens certamente dialogará com a produção de Guerreiro do Divino Amor, que tem também a nacionalidade suíça. Ele afirma que a base de seu trabalho "vem da tentativa de entender a diferença entre as várias culturas, continentes e meios sociais opostos entre os quais eu cresci, tendo sempre a sensação de ser estrangeiro". Confira a íntegra da entrevista do futuro residente artístico:

DAAD Brasil: Você pode nos contar sobre sua formação e trajetória até se consolidar como artista?
Guerreiro do Divino Amor: Minha formação acadêmica foi em Arquitetura e acho que isso ainda é muito presente no meu trabalho. O curso da escola de Grenoble, na França, era bem experimental e sensível, ligado à observação do entorno, do corpo, da luz e dos materiais para entender os espaços que compõem a cidade, desde o micro até uma escala macro, pensando em como esses níveis se relacionam. Ao mesmo tempo, havia um trabalho sobre as memórias afetivas que os lugares trazem, as lembranças e tudo que o espaço carrega além de sua materialidade, num plano simbólico e histórico.

No final dos anos 1990 e começo dos anos 2000, eu frequentava ocupações, uma cena techno e punk. Isso influenciou meu trabalho e foi importante na minha formação política, por encontrar alternativas de construção e vivências da cidade.

Já o mestrado, em Bruxelas, foi um curso chamado "Condição Urbana Contemporânea", focado no estudo da influência que fenômenos como o turismo de massa e o geomarketing tinham na construção da cidade. Foi nesse período, em 2005, que comecei o Atlas Superficcional Mundial, projeto que desenvolvo até hoje. Na verdade, ele começou como trabalho de pesquisa teórica, acadêmica, só que a forma e a abrangência não me convinham. Então, comecei a experimentar outras formas, como publicações, maquetes e vídeos, pondo em prática todas as ferramentas que eu tinha de análise teórica em uma forma plástica.

O trabalho começou a tomar a forma atual depois que eu pude fazer um curso técnico em efeitos especiais e animação. Foi como se o mundo se abrisse pra mim e assim foi que encontrei o meu meio de expressão predileto, nas animações. Para desenvolver os painéis de backlight animados fui experimentando mesmo, e vendo tutoriais. Foi quase que por acaso que fui migrando pro campo das artes visuais, não foi uma decisão. Foi onde fui acolhido e tive a liberdade para desenvolver meu trabalho da forma que eu queria, mas continuo atuando como um pesquisador em arquitetura e ciências sociais. E fico muito feliz que o trabalho seja usado em faculdades de arquitetura e escolas secundárias como ferramenta de análise e compreensão da cidade num sentido mais amplo.

"Supercomplexo Metropolitano Expandido" no Planetário do Ibirapuera, São Paulo, 2018. Foto: Rafael Frazão.

DAAD Brasil: Como você define seu trabalho e qual(is) é (são) a(s) força(s)-motriz(es) das suas proposições artísticas?
Guerreiro do Divino Amor:
Meu trabalho parte de um processo de investigação das disputas simbólicas e de poder que atravessam a sociedade tanto em escala local quanto global. Ele investiga como ficções religiosas, culturais, históricas e midiáticas interferem na construção do território e na maneira como seus habitantes se veem, assim como os embates entre diferentes civilizações presentes em um mesmo território. Ele tem um tempo bem longo de pesquisa, de acúmulo de informações por meio de pesquisa nas mídias de massa, documentos de arquivo, que se somam às questões que emergem ao viver num lugar, que partem das observações em situações corriqueiras do dia a dia.

A partir desses elementos de “Realidade” vou construindo um enredo ficcional que toma a forma de vídeos, publicações, instalações. O principal fruto dessa pesquisa é o projeto Atlas Superficcional Mundial, que desenvolvo há mais de 15 anos. São capítulos interligados que se dão com um enfoque numa questão específica. Até então, foram episódios em Bruxelas, Rio de Janeiro, São Paulo, Brasília, Minas Gerais e atualmente em construção Suíça e Amazônia.

DAAD Brasil: Quem são as suas principais referências estéticas, fontes de inspiração e inquietação?
Guerreiro do Divino Amor: A base do meu trabalho acho que vem da tentativa de entender a diferença entre as várias culturas, continentes e meios sociais opostos entre os quais eu cresci, tendo sempre a sensação de ser estrangeiro. Ao tentar me integrar de alguma forma, ficava observando os códigos e os modos, tentando entender as idiossincrasias e mimetizar. Isso não dava muito certo, mas acho que foi assim que desenvolvi um sentido da observação muito forte, que depois continuou se aguçando de outras formas ao longo dos meus estudos. Sempre tentar compreender as coisas, quando tudo parecia um quebra-cabeça onde faltavam muitas peças – acho que isso foi minha inquietação ao princípio. No decorrer da formação de arquiteto também me deparei com essas questões de como a cidade se construía, mas as visões propostas me pareciam muito incompletas por serem muito centradas num modo dominante de se pensar e viver no mundo, o que me levou a desenvolver outras formas de pesquisar.

Minhas referências estéticas vêm muito do mundo pop, dos videoclipes e telenovelas que cresci assistindo, ficava fascinado por essa linguagem de comunicação de massa. Depois me inspirei muito na estética científica, no mundo empresarial, nas mídias de massa, no mundo religioso, em como todos esses mundos se constituem como realidades paralelas a partir de ficções estéticas. Gosto de usar essas referências, esses símbolos do mundo midiático que são como totens, arquétipos, vendo Silvio Santos, William Bonner, etc. Todo mundo sabe do que se trata, são parte do inconsciente coletivo.

Instalação "Mausoleu Mineral", no Museu de Arte da Pampulha, Belo Horizonte, 2019. Foto: Paula Huvem.

DAAD Brasil: Quais são seus planos para sua residência em Berlim pelo Berliner Künstlerprogram do DAAD?
Guerreiro do Divino Amor:
Meu processo de pesquisa tem um tempo bem longo, então é um luxo inestimável ter um espaço físico e temporal para me concentrar e experimentar novas linguagens, como escultura, e também poder terminar de desenvolver coisas que nunca tive tempo de fazer – como escrever as novas publicações e começar novas pesquisas, por exemplo, acerca de Roma como centro da cristandade e referência estética de poder do mundo branco. Nesse sentido, estar em outro contexto com outras referências e interlocuções vai certamente dar uma boa chacoalhada no trabalho. A residência do DAAD oferece estar imerso com artistas do mundo todo, especificamente vindo de países da Ásia, África e Oriente Médio, com os quais não se tem oportunidades de trocar estando no Brasil. Isso é muito precioso e estou muito ansioso.