O grupo de observadores eleitorais de 2021 convidado pelo DAAD em Berlim

As eleições para o Parlamento Federal Alemão (Bundestag) de 2021 certamente serão lembradas como o marco de encerramento da era Angela Merkel enquanto chanceler do país. A convite do Serviço Alemão de Intercâmbio Acadêmico (DAAD), especialistas de diversos países puderam acompanhar de perto a reta final desse histórico e disputado pleito, vivenciando os bastidores da campanha eleitoral e uma série de encontros com políticos e representantes de instituições alemãs. Desde 1957, o DAAD promove a viagem de observação das eleições (Wahlbeobachterreise), reunindo pesquisadores e acadêmicos de diversos países que se destacam pela expertise nas áreas de Ciências Políticas, e Estudos Alemães e Europeus. Neste ano, pela primeira vez o grupo de 11 observadores incluiu jornalistas, como a representante brasileira, Leila Sterenberg, apresentadora da GloboNews.

Depois de cobrir as eleições de 2017 à distância, nos estúdios da emissora no Rio de Janeiro, a jornalista teve a oportunidade de mergulhar na campanha eleitoral alemã e se aprofundar em diversas questões políticas, econômicas, sociais e ambientais do país por meio do programa de atividades preparado pelo DAAD. Entre 21 e 27 de setembro, os observadores passaram pelas cidades de Berlim, Halle e Potsdam, e participaram de debates sobre os mais variados temas. Para documentar a viagem, o DAAD preparou um diário com os detalhes das atividades, que pode ser conferido neste link (em alemão).

Em sua atuação como jornalista, Leila já fez a tradução simultânea da chanceler Angela Merkel em algumas ocasiões, como nos 20 anos da queda do Muro de Berlim, nas eleições de 2017 e no começo de 2020, quando a Alemanha anunciou medidas restritivas por conta da pandemia de Covid-19. Na viagem a convite do DAAD, sua compreensão sobre o panorama político alemão ganhou novas nuances e permitiu uma extensa cobertura para os jornais da GloboNews, bem como para o canal do DAAD Brasil no Instagram. Nesta entrevista à nossa equipe, Leila Sterenberg conta como foi sua experiência como observadora eleitoral e também faz sua aposta sobre qual coalizão deverá governar a Alemanha pelos próximos anos.

Leila Sterenberg em frente ao Bundestag

DAAD Brasil: Você já acompanha o cenário político alemão há muitos anos e já produziu diversas reportagens sobre o país. Como foi a experiência de voltar à Alemanha enquanto observadora eleitoral e como parte de um grupo de acadêmicos e pesquisadores do mundo todo?

Leila Sterenberg: A profundidade que se ganha é incomparável. Claro que eu vinha lendo muito sobre a situação política alemã, na imprensa do país e em veículos como “The Economist” e “The New Statesman”, que têm análises muito interessantes. Mas ouvir em primeira mão as considerações de especialistas alemães e dos outros observadores – que são todos especialistas também –, traz outro nível de compreensão. E a viagem me deu a oportunidade de conhecer, por exemplo, candidatos ao Bundestag e de estar em eventos dos partidos. Isso eu jamais faria se estivesse cobrindo à distância.

DAAD Brasil: As eleições alemãs de 2021 ficarão certamente marcadas como um marco do fim da era Angela Merkel. Como foi cobrir a reta final da campanha de um pleito histórico e tão disputado? Quais temas predominaram no debate político?

Leila Sterenberg: Clima e sustentabilidade se tornaram a principal preocupação do eleitor alemão na reta final. A eleição também foi marcada pelo coronavírus: a Covid acentuou o espírito alemão de cautela e preocupação em relação ao futuro. Isso fica evidente em outros temas importantes no debate: a previdência e a dívida pública. Quem vai pagar a conta dos gastos governamentais para fazer face à pandemia? A Alemanha também percebeu na quarentena que precisa investir em digitalização e melhorar alguns aspectos do sistema educacional. A população quer ajustes de rota – que ajustes são esses depende da inclinação política do cidadão. Mas a maioria sabe que há o que melhorar, mesmo sendo um país tão rico e desenvolvido.

O grupo de observadores teve um encontro com o candidato do SPD Karamba Diaby

DAAD Brasil: Parte importante do programa foram os encontros com candidatos de diferentes partidos alemães e as visitas a eventos de campanha. Que características e práticas desse ambiente político mais chamaram sua atenção? O que compararia com o modo brasileiro de fazer campanha?

Leila Sterenberg: A campanha alemã é muito menos personalista e mais focada no debate de ideias. As diferenças entre os partidos são muito mais evidentes. O que propõem SPD, CDU, FDP, Verdes, Esquerda e AfD é claro e direto, sem rodeios. Todos os candidatos foram muito afáveis e solícitos com nosso grupo. E tivemos a oportunidade de sentir, no mesmo dia, o “clima” (Stimmung em alemão) de um comício da Esquerda em praça pública e de um evento do partido FDP junto a uma sofisticada manufatura de porcelanas. Imagina a diferença de ambiente e de público? Também estive na “Wahlparty” (festa das eleições) do Partido Verde, onde chamava a atenção a quantidade de eleitores muito jovens. Foi interessantíssimo.

DAAD Brasil: Entre os temas abordados na viagem, estiveram a importância de uma maior representatividade feminina no Bundestag e a integração de refugiados e imigrantes. Como percebeu esses debates no grupo e no país?

Leila Sterenberg: O grupo, majoritariamente feminino, teve muito interesse pelo tema da maior representatividade. A Alemanha, na comparação com outros países do norte da Europa, ainda tem uma longa estrada nesse sentido. Foi muito rico ouvir um integrante do governo que se dedica ao tema da representatividade – mesmo sendo ele homem e branco, leva muito a sério esse tema. E conhecemos duas mulheres com origem/ascendência estrangeira que se dedicam ao aumento da representatividade. O simples fato de elas serem consideradas vozes de destaque no assunto já mostra como há oportunidades na Alemanha.

DAAD Brasil: Você participou de uma coletiva de imprensa ao lado de dois outros observadores eleitorais e do porta-voz do DAAD, Michael Flacke. Como foi essa experiência? Quais pontos mais despertaram o interesse dos jornalistas alemães presentes?

Leila Sterenberg: A percepção que o mundo tem de Angela Merkel foi o assunto mais abordado. Ela, certamente, fez história, e não apenas para os alemães. Para nós, brasileiros, ela se tornou uma espécie de antagonista de Donald Trump, enquanto esse esteve à frente dos EUA. O público adora simplificar os personagens da política internacional e rotulá-los como vilões e heróis. Nesse sentido, para muita gente no Brasil, enquanto Trump foi o vilão, Merkel foi a heroína, a “líder do mundo livre” – ainda que ela, segundo li, não goste de ser chamada assim.

Os observadores estiveram também na festa eleitoral do Partido verde

DAAD Brasil: Você produziu várias reportagens nesses dias enquanto observadora eleitoral. Uma delas enfocou a questão da virada energética na Alemanha e as cobranças por uma transição para matrizes energéticas limpas. Que novas percepções você ganhou sobre esse tema com a viagem?

Leila Sterenberg: Fiz uma reportagem especial, de mais de quatro minutos – o que para TV é muita coisa – para o programa “Cidades e Soluções” sobre o papel que a pauta ambiental tem hoje na política alemã. O Partido Verde ficou em terceiro lugar na votação para o Bundestag, mas é inegavelmente um “Kanzlermacher”. E quase a metade dos alemães considerava, às vésperas da eleição, o clima e a necessidade de uma virada energética – com o fim do uso das termoelétricas – o principal problema do país. Achei muito interessante ouvir dos especialistas do Institute for Advanced Sustainability Studies (IASS), em Potsdam, que a transição para uma economia de baixo carbono tem que passar por uma transformação mais profunda da sociedade e da economia. Onde irão trabalhar os alemães que têm seus empregos no setor extrativo de carvão e na geração de energia térmica? Qual vai ser o destino das cidades dedicadas a essas atividades? Tudo isso tem que ser pensado. A mudança não vem de um estalar de dedos e sim com muito debate e planejamento.

DAAD Brasil: Gostaria de destacar algum outro ponto do programa da Wahlbeobachterreise?

Leila Sterenberg: Gostei muito, em Berlim, das palestras do Prof. Ulrich Edith (diretor do Instituto de Educação Política de Baden-Württemberg), que nos acompanhou em todo o programa, o que foi excelente. Destacaria, ainda, as palestras de Thorsten Faas, professor de Ciência Política na Freie Universität Berlin, e de Karl-Rudolf Korte, também professor de Ciência Política, mas da Universität Duisburg-Essen. Outra ótima oportunidade foi a de conversar com o jornalista Nico Fried na visita à redação do Süddeutsche Zeitung em Berlim.

Essas conversas ajudaram a entender as nuances da política partidária, do sistema parlamentar alemão e da cabeça do eleitor. Em Potsdam, a apresentação do grupo de especialistas do Institute for Advanced Sustainability Studies (IASS), Johannes Staemmler, Pia-Johanna Schweizer e Ingo Wolf, foi ótima para compreender os diversos aspectos sociais e até mesmo psicológicos que a virada energética engloba. Em Halle, foram preciosos os encontros com os candidatos Karamba Diaby (SPD), Yana Mark (FDP) e Inés Brock (Partido Verde). Também em Halle foi rica a aula de macroeconomia que tivemos no Instituto Leibniz para Pesquisa Econômica (IWH). Aprendi que o envelhecimento da população e, portanto, o fato de em breve haver mais gente aposentada do que trabalhando representa um desafio enorme para a economia alemã.

Debate no Ministério das Relações Exteriores

Outro ponto alto foi o debate no Ministério das Relações Exteriores com a participação do presidente do DAAD, Joybrato Mukherjee, e especialistas nas relações da Alemanha com diferentes países, entre eles Estados Unidos e Rússia. Foi inclusive uma grande ajuda para uma reportagem que fiz sobre as perspectivas da política externa alemã.

DAAD Brasil: Espera-se que a nova coalização de governo se forme nas próximas semanas ou meses. Que cenário considera mais provável?

Leila Sterenberg: Acho que vai acabar saindo a coalizão Semáforo*, de SPD, verdes e liberais (FDP). Acho que o Olaf Scholz, que é um hábil negociador e contemporizador, vai conseguir fazer a costura. Como liberais e verdes vão se entender – uma vez que têm visões distintas a respeito do papel do Estado – é a grande questão. Vai ser interessante observar.

*Devido às cores dos partidos.